sexta-feira, 2 de abril de 2010

Urbano Tavares Rodrigues


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Pertenço a uma geração que se tornou adulta durante a II Guerra Mundial. Acompanhei com espanto e angústia a evolução lenta da tragédia que durante quase seis anos desabou sobre a humanidade. Desde a capitulação de Munique, ainda adolescente, tive dificuldade em entender porque não travavam a França e a Inglaterra o III Reich alemão. Pressentia que a corrida para o abismo não era uma inevitabilidade. Podia ser detida. Em Maio de 1945, quando o último tiro foi disparado e a bandeira soviética içada sobre as ruínas do Reichstag, em Berlim, formulei como milhões de jovens em todo o mundo a pergunta «Como foi possível?» Hitler suicidara-se uma semana antes. Naqueles dias sentíamos o peso de um absurdo para o
qual ninguém tinha resposta. Como pudera um povo de velha cultura, o alemão, que tanto contribuíra para o progresso da humanidade, permitir passivamente que um aventureiro aloucado exercesse durante 13 anos um poder absoluto. A razão não encontrava explicação para esse absurdo que precipitou a humanidade numa guerra apocalíptica (50 milhões de mortos) que destruiu a Alemanha e cobriu de escombros a Europa? Muitos leitores ficarão chocados a por evocar, a propósito da crise portuguesa, o que se passou na Alemanha a partir dos anos 30. Quero esclarecer que não me passa sequer pela cabeça estabelecer paralelos entre o Reich hitleriano e o Portugal agredido por Sócrates. Qualquer analogia seria absurda. São outros o contexto histórico, os cenários, a dimensão das personagens e os efeitos. Mas hoje também em Portugal se justifica a pergunta «Como foi possível?» Sim. Que estranho conjunto de circunstâncias conduziu o País ao desastre que o atinge? Como explicar que o povo que foi sujeito da Revolução de Abril tenha hoje como Primeiro-ministro, transcorridos 35 anos, uma criatura como José Sócrates? Como podem os portugueses suportar passivamente há mais de cinco anos a humilhação de uma política autocrática, semeada de escândalos, que ofende a razão e arruína e ridiculariza o Pais perante o Mundo? O descalabro ético socrático justifica outra pergunta: como pode um Partido que se chama Socialista (embora seja neoliberal) ter desde o início apoiado maciçamente com servilismo, por vezes com entusiasmo, e continuar a apoiar, o desgoverno e despautérios do seu líder, o cidadão Primeiro-ministro? Portugal caiu num pântano e não há resposta satisfatória para a permanência no poder do homem que insiste em apresentar um panorama triunfalista da política reaccionária responsável pela transformação acelerada do país numa sociedade parasita, super endividada, que consome muito mais do que produz. Pode muita gente concluir que exagero ao atribuir tanta responsabilidade pelo desastre a um indivíduo. Isso porque Sócrates é, afinal, um instrumento do grande capital que o colocou à frente do Executivo e do imperialismo que o tem apoiado. Mas não creio neste caso empolar o factor subjectivo. Não conheço precedente na nossa História para a cadeia de escândalos maiúsculos em que surge envolvido o actual Primeiro-ministro. Ela é tão alarmante que os primeiros, desde o mistério do seu diploma de engenheiro, obtido numa universidade fantasmática (já encerrada), aparecem já como coisa banal quando comparados com os mais recentes.

O último é nestes dias tema de manchetes na Comunicação Social e já dele se fala além fronteiras. É afinal um escândalo velho, que o Presidente do Supremo Tribunal e o Procurador-geral da República tentaram abafar, mas que retomou actualidade quando um semanário divulgou excertos de escutas do caso Face Oculta. Alguns despachos do procurador de Aveiro e do juiz de instrução criminal do Tribunal da mesma comarca com transcrições de conversas telefónicas valem por uma demolidora peça acusatória reveladora da vocação libertina do governo de Sócrates para amordaçar a Comunicação Social. Desta vez o Primeiro-ministro ficou exposto sem defesa. As vozes de gente sua articulando projectos de controlo de uma emissora de televisão e de afastamento de jornalistas incómodos estão gravadas. Não há desmentidos que possam apagar a conspiração. Um mar de lama escorre dessas conversas, envolvendo o Primeiro-ministro. A agressiva tentativa de defesa deste afunda-o mais no pântano. Impossibilitado de negar os factos, qualifica de «infame» a divulgação daquilo a que chama «conversas privadas». Basta recordar que todas as gravações dos diálogos telefónicos de Sócrates com o banqueiro Vara, seu ex-ministro foram mandadas destruir por decisão (lamentável) do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, para se ter a certeza de que seriam muitíssimo mais comprometedoras para ele do que as «conversas privadas» que tanto o indignam agora, divulgadas aliás dias depois de, num restaurante, ter defendido, em amena «conversa» com dois ministros seus, a necessidade de silenciar o jornalista Mário Crespo da SIC Noticias. Não é apenas por serem indesmentíveis os factos que este escândalo difere dos anteriores que colocaram José Sócrates no banco dos réus do Tribunal da opinião pública. Desta vez a hipótese da sua demissão é levantada em editoriais de diários que o apoiaram nos primeiros anos e personalidades políticas de múltiplos quadrantes afirmam sem rodeios que não tem mais condições para exercer o cargo. O cidadão José Sócrates tem mentido repetidamente ao País, com desfaçatez e arrogância, exibindo não apenas a sua incompetência e mediocridade, mas, o que é mais grave, uma debilidade de carácter incompatível com a chefia do Executivo. Repito: como pode tal criatura permanecer como Primeiro-ministro? Até quando, Sócrates, teremos de te suportar? "Como explicar que o povo que foi sujeito da Revolução de Abril tenha hoje como Primeiro-ministro, transcorridos 35 anos, uma criatura como José Sócrates? Como podem os portugueses suportar passivamente há mais de cinco anos a humilhação de uma política autocrática, semeada de escândalos, que ofende a razão e arruína e ridiculariza o País perante o Mundo?"



Nota do Artur/Leiria: apesar de este ser um blogue virado para a vida dos fuzileiros na marinha, acho que de vez enquanto não se pode ignorar assuntos políticos que nos toca a todos... Leva-nos isto a pensar o porquê das nossas missões tão nobres durante o período de guerra que Portugal sustentou, quando, ao que parece, tudo foi em vão com políticos que tem posto o pais de rastos. É preciso ter em linha de conta que este artigo foi escrito por um escritor/politico que sempre sustentou ideologias políticas da esquerda, imaginem só o que não mais diria, caso fosse de inclinações de direita.

2 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado amigo LEIRIA por trazeres ao blog, assunto da máxima actualidade!
Urbano Tavares Rodrigues é um escritor e que sempre expressou as suas posições políticas, antes e depois de Abril e sabe do que fala...
Entretanto, nós, desconhecidos é certo e não sendo nem escritor, nem jornalista, nem político, temos uma opinião que anda muito próxima da dele!
Concordo, que já deu para perceber que o português Sócrates é um mentiroso compulsivo e que terá sido "indicado" aos portugueses pelo grande capital... Só que quem o indicou e fez força nesse sentido, sabe que tem o problema resolvido por algum tempo e depois logo se verá... O CAPITAL não tem rosto, só necessita de duas caras...
É preciso perceber que a Alemanha é um dos países mais intelectuais do mundo, mas mesmo assim, apoiou um tresloucado de terceira classe como Adolf Hitler... É preciso perceber o contexto, para que a generalidade de um país onde se incluia Martin Heidegger, considerado um dos maiores filósofos do século, apoiasse Hitler, um homem que não tinha estudos, um homem que foi recusado pela escola de belas-artes, que foi recusado pela escola de arquitectura, porque não era possuidor de uma inteligência capaz de alcançar tais feitos... Mas, hoje, ao olhar para trás, é fácil verificar e os alemães sabem-no, que com o voto puseram no poder um monstro e a seguir apoiaram-no, talvez o maior assassino da História!...
Pelo que já sabemos, é quase certo que os portugueses se irão confrontar um dia com os efeitos negativos das MENTIRAS do snr. Sócrates, porque os do CAPITAL lavaram daí as mãos, logo que os resultados da sua eleição vieram para a praça pública...
O CAPITALISMO, mesmo o que não tem nem quer regras, está aí para durar, se possível até ao fim do Homem!... E se as maiorias colaborarem...
UM ABRAÇO!
PIKÓ

Valdemar disse...

Estivemos em comprimento de uma missão e soubemos dignificar e servir o nosso País. Ao contrário daqueles que nunca o serviram e apenas se servem dele.
Provamos ao sermos incorporados como voluntários na Armada que eramos pessoas activas da Sociedade.
Numa altura em que a grande maioria procurava safar-se, nós tivemos a coragem de sermos voluntários.
Urbano Tavares Rodrigues que apesar dos seus longos anos de existência,continua com um discernimento invejável.
Pagou caro, mesmo muito caro,até mesmo depois do 25 de Abril de 74, por continuar fiel ás suas convicções.
Ao contrário daqueles que ditos exilados em S. Tomé e Principe desfrutaram de condições altamente privilegiadas e sempre se intitularam como os mais cérrimos defensores do combate ao fascismo e depois pela defesa intransigente das liberdades, enquanto foram enchendo os bolsos e dando benesses aos seus amigos.
Mas mais palavras para quê?
Parabéns pela coragem e importância da publicação do artigo.