terça-feira, 1 de março de 2011

Morte asseada

Com a devida vénia a Aida Baptista - Morte asseada
Nota: Ainda sobre o caso da idosa encontrada, depois de quase dez anos, morta no seu apartamento! E somos nós governados por gente que não sabe nem quer cumprir com os seus deveres, mas tudo muda quando o dinheiro fala!
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Chegou a vez de os velhos serem notícia de abertura dos telejornais e tema dos mais variados textos, em diferentes registos, divulgados em tudo quanto é imprensa nos últimos dias. Intencionalmente, utilizo a palavra “velhos” em vez do eufemismo idosos.
De cada vez que mudamos o nome às coisas é porque o anterior nos incomodava e isso, só por si, é já bem revelador de um certo preconceito e, uma atitude mental com os quais temos dificuldade em lidar.
Quando eu era criança, a palavra “velho” vinha carregada de muita ternura e ainda hoje não percebo que necessidade houve de a substituir por idoso. Não me imagino a recuar no tempo e a dizer que a minha avó ou o meu avô eram muito idosos, porque para mim eles foram sempre os meus velhinhos.
No passado dia oito, o país foi colhido de surpresa com uma notícia que a todos deixou boquiabertos — uma senhora de 96 anos fora encontrada morta em casa. O estranho da notícia não está no facto de alguém, sozinho e de idade avançada, ter morrido sem que a vizinhança tivesse dado conta. O que tornou a descoberta macabra foi o facto de esta senhora estar morta há cerca de 9 anos e ter sido a venda da casa a chave do mistério, que há tantos anos intrigava a vizinha Aida Martins.
Augusta Martinho (assim se chamava a falecida), que em 1995 passara por uma segunda viuvez, vivia num andar de um prédio situado na Rinchoa. Por companhia, apenas um cão que um dia encontrara abandonado na rua e acolhera a sua guarda. Pessoa extremamente recatada e reservada — assim é descrita pela vizinhança — não partilhava com terceiros o seu quotidiano nem tão pouco as memórias do seu passado. Por isso, dela pouco ou nada se sabia e a única relação da proximidade ficava-se pelo que as regras da cortesia impõem: um cumprimento fugaz de cada vez que se cruzava com alguém no prédio ou na rua. De familiares também não havia notícia, excepto a presença esporádica de um primo que, a pedido seu, de vez em quando a visitava. No entanto, por mais silencioso que fosse o viver quotidiano, havia rotinas que deixavam pegadas na passagem dos dias: o condomínio que se pagava a tempo e horas, o correio que se retirava da caixa, o lixo que se punha no contentor, a passada ligeira das saídas curtas quando saia para fazer compras, a roupa pendurada no estendal da varanda e as luzes acesas. No fundo, todos os ruídos e movimentos naturais de quem diariamente arrasta a vida. Até que um dia, tudo isto desapareceu!
Augusta Martinho pagou o condomínio no dia 7 do Agosto do 2002 e, a partir desse dia, perdeu-se o rasto do seu viver. Motivo de conversa no prédio, alvitrou-se a hipótese de ter ido passar uma temporada ao Algarve, prática já conhecida entre os demais moradores. O tempo, porém, foi passando e outros sinais começaram a contrariar os hábitos organizados a que esta condómina de longa data habituara os restantes proprietários. Deixara de pagar a condomínio e a caixa do correio começou a ficar atulhada de correspondência e publicidade. Aida Martins, a vizinha que, por força das funções de administradora, mais vezes contactara com Augusta Martinho, começou a estranhar, tanto mais que, por entre as cartas que se acumulavam na ranhura da caixa, estava a pensão da reforma por levantar.
Aida Martins foi a vizinha atenta e a cidadã que durante anos, sem nunca desistir, fez todas as diligências para convencer as entidades responsáveis (Guarda Nacional Republicana, Policia de Segurança Pública e Segurança Social) de que algo de anormal se passava. Em vão! Por insistência dela, as autoridades policiais ainda se deslocaram ao local, mas esbarraram sempre na desculpa de que seria ilegal forçar a entrada de uma propriedade privada. Por mais que Aida Martins insistisse e tivesse até levantado a hipótese de a senhora se encontrar morta, a resposta que ouvia vinha sempre embrulhada num riso sarcástico:
- Ó minha senhora, isso era impossível! Se estivesse morta, tinha de cheirar mal!
Mais tarde, é também o primo quem começa a preocupar-se com tão prolongado silêncio da familiar que, de vez em quando lhe telefonava com pedidos pontuais de ajuda. Também ele comunicou o facto às diversas entidades responsáveis, também ele requereu a presença policial no local, também ele solicitou o arrombamento da porta d entrada, também ele admitiu a possibilidade de a prima estar já morta, para ouvir como resposta a mesma gargalhada que introduzia a frase:
- Se estivesse morta, tinha de cheirar mal!
E é aqui que nos interrogamos se estamos a falar de polícias ou de cães que detectam cadáveres pelo cheiro?! Mas a verdade é que foi assim que o cheiro da indiferença tornou inodoras todas as tentativas de saber o que se passava com Augusta Martinho. Até ao dia em que as dívidas acumuladas no fisco desencadearam uma execução fiscal que obrigou à penhora a venda do apartamento em hasta pública. A passagem do título de propriedade para outros donos preencheu, desta vez, a vazio legal que impedia as autoridades de forçarem a abertura de uma porta que esperou quase dez anos para ser aberta.
Lá dentro, estendido no chão da cozinha, jazia o cadáver de Augusta Martinho, descoberto ao fim de oito anos e meio. Na varanda, morto também, a única testemunha daquelas últimas horas: o cãozinho que ela resgatara do abandono e da solidão.
Tudo isto aconteceu porque Augusta Martinho teve o azar de morrer de morte asseada. Durante tantos anos que nunca cheirou mal!

2 comentários:

Valdemar disse...

Lembro-me do Portugal que deixei (pobre sim, mas com princípios e morais) e lembro-me de ter feito comentários com "os aussies" sobre os inúmeros casos de abandono de velhos que com frequência por aqui acontecem... Infelizmente esta noticia passou fronteiras, chegou aqui e vou ter agora que engolir o que disse... E embora este não seja um caso de abandono por parte de familiares é sem dúvida uma prova que a máquina burocrática em Portugal só serve para lixar a vida dos contribuintes... Porque uma senhora morta 10 anos morta num apartamente é algo (extremamente macabro) que poderia ser evitado e que provalvelmente irá figurar agora no Guiness Book, provando-se também com esta triste história que há apenas um organismo em Potugal que trabalha com eficiência... AS FINANÇAS!
Valdemar Alves

Artur Sousa (Leiria) disse...

Olá Valdemar.
Surpreendeu-me o teu comentário, uma vez que este assunto já vai sendo mais do que roupa velha!
Quanto ao teres dito aos aussies que em Portugal havia dignidade e respeito, não é de admirar porque duma maneira geral os pais portugueses amam tanto os seus filhos que jamais os põem fora de casa, sendo estes sempre os seus meninos, nem que tenham 60 anos de idade.
Bem pelo contrário os ingleses e seus descendentes - gente fria onde o amor não passa de sentimento banal que, logo ao atingirem os 17-18 anos de idade dizem: - ala meninos que ao terdes asas e sabendo voar, a rua é vosso mundo, como os meus pais me fizeram…
Repara só como os filhos da família real (Inglaterra) são criados por amas, em que o carinho e amor dos seus pais jamais foram vistos!
Quanto ao caso em referência – pergunto-me como foi possível vender a propriedade a alguém, sem que esse, alguém, tivesse pré-inspeccionado a mesma!?
Há cá cada uma, de se lhe tirar o chapéu! Ou então há gato?! Quem me diz que não há alguém que vai comendo à grande e à francesa!?
Gostaria de ver o fim deste ignóbil caso fantasmagórico…
Que dizes?
Um abraço.